Segunda-feira é, para muito boa gente, o dia de começar aquela tal dieta com a determinação de quem vai conquistar o mundo. Corta-se o pão. Diz-se adeus à massa. Comer arroz é crime. Excomunga-se a batata. Os doces e o chocolate são varridos dos armários. O jantar resume-se a uma sopa triste e desconsolada. Durante uns dias, tudo parece correr às mil maravilhas. Até que chega sexta-feira e, às 23h59, está diante do frigorífico a comer tudo aquilo que passou a semana inteira a proibir-se. Depois vem o jantar de sábado, seguido do almoço de domingo. E, num abrir e fechar de olhos, começou tudo de novo: restrição, perda de peso, fome e cansaço, desejo intenso por determinados alimentos, perda de controlo, culpa, nova dieta.
Bem-vindas ao ciclo das dietas. E comecemos pelo essencial: o problema não é falta de força de vontade. O problema é tentar sustentar uma lógica alimentar rígida, punitiva e difícil de manter no tempo. Uma das maiores armadilhas das dietas restritivas é fazê-la acreditar que o sucesso depende exclusivamente da sua disciplina. Se conseguir cumprir, é “forte” (aplausos!). Se não conseguir, é “fraca” (assobios). A verdade é que, quando restringe demasiado a alimentação, sobretudo durante períodos prolongados, pode surgir mais fome, preocupação constante com comida, fadiga, irritabilidade e uma vontade crescente de comer precisamente aquilo que lhe disseram que estava interdito. E quanto mais rígidas forem as regras, maior a sensação de fracasso. Mas isto nada tem a ver com falta de carácter. Perceba de uma vez por todas: se não consegue manter a dieta, é porque essa dieta não é para si!
Todos os anos surgem novas versões instagramáveis da mesma história: a dieta que promete resultados rápidos, o alimento que “bloqueia” a absorção de gordura, o plano que garante perder vários quilos em poucas semanas, e por aí vai. Mas o que mais me intriga é o método “eficaz e personalizado” que, curiosamente, é igual para centenas de pessoas. Muda o nome, muda a capa do PDF, acrescentam-se umas cápsulas e uma fotografia muito convincente de um antes-e-depois. A lógica permanece: quanto mais rápida e dramática for a promessa, mais desconfiada deve ficar.
Uma intervenção nutricional séria não precisa de vender sofrimento como prova de eficácia. Na prática clínica diária, vejo mulheres que chegam à consulta com uma réstia de esperança, mas também com medo do que dali possa sair, tal é o cansaço acumulado por dezenas de tentativas anteriores. Muitas já compraram livros, e-books, programas online e promessas sucessivas de transformação. Tentaram de tudo um pouco num negócio muitas vezes alimentado por medo, culpa, humilhação e dependência. A balança transforma-se em instrumento de punição, e as listas de alimentos “bons”, “maus” e “assim-a-assim” acabam por aumentar a ansiedade em vez de devolverem a tranquilidade merecida.
O objetivo de um bom acompanhamento é aumentar a autonomia, nunca criar dependência. E porque comer ou não comer não tem de ser uma batalha permanente, a meu ver, o termo dieta já começa a ficar curto para aquilo que realmente importa. O comum dos mortais associa dieta a restrição: um período que começa e que, mais cedo ou mais tarde, termina. Como bem se sabe, a obesidade é uma doença crónica, cujo tratamento é para toda a vida e não se compadece com 3 ou 4 semanas a comer menos. Por isso, trabalhar objetivos relacionados com o peso sem transformar cada refeição numa prova de resistência passa por incutir, calma e serenamente, novos hábitos que façam parte da vida da pessoa, atendendo às suas rotinas, preferências, contexto familiar, cultura, orçamento, atividade física, sono e relação com a comida.
Uma dieta que se torna impossível de cumprir não resolve problemas. Sair do ciclo das dietas não significa desistir, mas sim adotar uma abordagem mais sustentável. Significa aprender que comer um bolo não estraga uma semana, e que uma refeição diferente não exige compensação. Perder peso não é um “muito bom” na caderneta de comportamento se isso depender de andar a contar folhas de alface, e angustiada com a vida. E, com franqueza, já chega de declarar guerra ao pão, ao arroz, à batata e à massa. Acreditem, estão completamente inocentes. O caminho não é aprender a temê-los, é aprender a integrá-los com critério, consistência e, acima de tudo, paz.








